O caso da igreja do rosário

Walter Jobim não atuou como Advogado desde o princípio de sua carreira. Em Santa Maria, Rio Grande do Sul, um caso emblemático envolvendo, de um lado, a população de etnia africana da cidade, e de outro a Igreja Católica, influenciou diretamente em suas escolhas profissionais.

  Após a libertação dos escravos, a comunidade de matriz africana de Santa Maria estabeleceu-se na região onde hoje se encontra a Igreja do Rosário. Lá, fundaram uma sociedade religiosa e, com recursos próprios, construíram a Igreja do Rosário, de orientação católica.

  A situação se complicou quando a cúria diocesana, liderada pelo padre Caetano Pagliuca, que havia construído o Colégio Pão dos Pobres na frente da igreja (onde hoje funciona a sede da Universidade Franciscana), decidiu reivindicar a propriedade da igreja. A cúria argumentava que, sendo uma igreja católica, deveria pertencer à diocese.

  Walter Só Jobim, então atuando como juiz distrital, julgou a causa em primeira instância e decidiu a favor da comunidade, reconhecendo o direito de propriedade sobre o imóvel.

 

  Insatisfeita com a decisão, a cúria diocesana recorreu ao juiz da Comarca, que funcionava como segunda instância. O magistrado reverteu a decisão de Jobim, dando ganho de causa à cúria.

  Como consequência de sua decisão inicial, Walter Só Jobim sofreu retaliações. A cúpula da Igreja Católica conseguiu junto ao governo do Estado sua transferência, numa clara atitude de vingança, para o Município de Rio Grande.

  No entanto, Jobim recusou-se a aceitar a transferência, abandonou a magistratura e assumiu o cargo de promotor em Santa Maria. Nessa época, acredita-se que ele já conhecia Ana Niederauer (Donana), com quem mantinha um relacionamento amoroso, e que veio a se tornar sua esposa e mãe de seus filhos, o que o motivou a se radicar definitivamente na cidade.

O caso do oficial maçom

Durante seu período como promotor, Walter Só Jobim enfrentou outro caso que definiria sua trajetória profissional. Um oficial do exército, chimango (partidário do governo), simpático ao regime e membro da maçonaria da época, assassinou sua esposa.

  Jobim também era maçom, tendo sido orador da Loja Luz de Trabalho, sofreu a investida de alguns membros da organização (uma minoria influente), pressionou-o para proteger o “irmão” que havia cometido o crime, esperando que ele descumprisse seus deveres como promotor.

  Walter Só Jobim recusou-se categoricamente a ceder às pressões, declarando que tinha “um dever a cumprir” e que não relativizaria suas obrigações profissionais. Por essa posição ética, afastou-se da maçonaria, ainda que muitos maçons concordassem com sua atitude.

Como efeito de perseguição política, o governo determinou sua transferência para Santana do Livramento, na fronteira. Mais uma vez, ele se recusou a aceitar a transferência. Desta vez, tomou uma decisão radical: simplesmente não pediu demissão nem se apresentou no novo local de trabalho.

  Jobim costumava dizer: “Eu ainda sou promotor, porque não pedi demissão, não me demiti, e eu não fui.”

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