Seria o WhatsApp um agente do mal?

Ainda que eu seja estudioso de negociação, não é preciso ser nenhum gênio para perceber o caos que, eventualmente, se forma em torno do tema deste artigo. Quanto tempo por dia você dedica ao aplicativo WhatsApp? Ok, pode ser qualquer outro — também vale —, mas é notório que, atualmente, este é o mais checado no dia a dia.

Resolvemos tudo pelo WhatsApp: de trabalhos complexos à lista do mercado. Muito se discute sobre os limites éticos do seu uso, e tenho certeza de que muitas pessoas vão se identificar com as observações que faço a seguir. O ponto central é simples: às vezes, a tecnologia traz problemas junto com a inovação.

Você recebe um texto pelo aplicativo. Que informações ele carrega? Apenas palavras. Qual foi o tom de voz ou o sentimento transmitido? Nenhum.

É aí que mora o problema. Pouca gente se dá conta de um fator essencial no processo de comunicação: o tom de voz atribuído ao texto é o da imaginação de quem lê. E isso explica boa parte dos desentendimentos. Em muitos casos, quem lê é aquele diabinho interno, sempre disposto a cochichar interpretações negativas.

Quando se envia uma mensagem escrita, não há interação emocional direta. Como a maioria das pessoas também não domina a arte de ser clara e objetiva ao escrever, o aplicativo acaba se transformando em um verdadeiro barril de pólvora, pronto para explodir a qualquer momento.

O problema está nos cálculos emocionais que o leitor faz ao absorver o conteúdo: imagina ironias, dissimulações ou grosserias que simplesmente não existem no texto literal.

Pouca gente sabe escrever. E, graças a Deus, existem os emojis, que ajudam a suavizar a comunicação — embora jamais consigam substituir uma conversa presencial.

No contato cara a cara, tudo tende a ser mais polido e educado. No aplicativo, alguns se ofendem se a mensagem não começa com o tradicional “bom dia”. E não me refiro às imagens bregas de bom dia que circulam por aí (algumas até têm seu charme), mas é evidente que ninguém dá bom dia, diariamente, para todos os seus contatos do WhatsApp.

Diante disso, talvez seja hora de discutirmos um código de ética do aplicativo. Compartilho, abaixo, aquilo que considero razoável:

  1. Não se ofenda imediatamente com mensagens escritas. Antes, tente vislumbrar outros contextos e intenções. Muitas vezes, a pessoa apenas não sabe escrever direito — um problema cada vez mais comum.
  2. Evite mensagens profissionais fora do horário de expediente, especialmente no início da manhã, à noite ou no intervalo do meio-dia.
  3. Não crie expectativas quanto ao tempo de resposta. Se for urgente, ligue. Muita gente só responde quando pode — e isso é legítimo.
  4. Jamais cobre resposta enviando apenas um ponto de interrogação.
  5. Grupos grandes — especialmente os de condomínio — são territórios de conflito. Sempre haverá alguém incapaz de dialogar e disposto a declarar guerra em público. Lembre-se: uma frase dita no privado raramente ofende quando não há plateia.
  6. Textos longos não dão conta de assuntos complexos. Se precisar, mande um áudio — mas não faça um podcast. Isso é tortura para quem recebe.
  7. Pessoas muito ocupadas participam de muitos grupos. Elas têm direito a demorar para responder ou, eventualmente, deixar um vácuo não intencional.

Em resumo, as pessoas precisam entender que as palavras representam apenas uma parte do processo de comunicação. Quer ser compreendido? Então escolha palavras compatíveis com o tom de voz desejado e com a carga emocional pretendida.

E, para aqueles que, como eu, usam o WhatsApp como ferramenta de trabalho, só me resta dizer: meus pêsames.

Outros

Artigos

Preencha estes dados que entraremos em contato